Já faz algum tempo que adentramos em um clima de catástrofe. São e foram muitas sensações de “fim do mundo” a se enfrentar. Tragédias ambientais, biológicas e sociais e crises políticas que abalaram a democracia do nosso país. Agora chegam até os brasileiros os efeitos dos conflitos econômicos e bélicos crescentes mundo afora.
Em meio a tantas tensões, perguntas surgem na clínica: Como manter a aposta na vida e sustentar o ânimo para seguir, apesar do medo? O medo não é uma sensação convidativa, pelo contrário, ele é um sinal, uma resposta do cérebro às ameaças e, por isso, nosso corpo também o sente e tensiona. Para além do corpo, também conhecemos alguns outros sinais de ordem psíquica, como a angústia e a ansiedade, que podem ser sutis ou mais intensas, resultando em fobias ou transtornos, como o de pânico.
Todos esses registros inscritos em nosso corpo e psiquismo causam receio e inibição, o que, convenhamos, é compreensível. Mas o medo não bate na nossa porta apenas com tragédias concretas, ele chega até nós diariamente através da linguagem. É ela que nos conecta, formando uma rede coletiva fundamental para nossa existência. É a linguagem que nos anuncia as nuances da vida simbólica e captamos isso, consciente e inconscientemente. É ela também que ajuda a compor um recurso fundamental: a memória.
Quando pensei em escrever este texto, poderia sugerir como possíveis saídas para o medo alternativas tão importantes quanto, como os vínculos, os afetos ou mesmo a atenção amorosa às coisas simples da vida, mas foi a memória que me tocou. Atualmente, com a comunicação virtual, encurtamos o tempo da enunciação. Precisamos ser rápidos, resumidos e claros para cativar a atenção do outro já que em seguida, somos arrebatados por outras informações.
Se queremos saber de algo, quase já não paramos para pensar, perguntamos à inteligência artificial, hoje acessível à maioria da população. E é neste ausentar-se que nossa memória parece já não colaborar. Esse comportamento tão atual não prejudica apenas a lembrança de dados e informações, mas também desaprendemos, pouco a pouco, a contemplar.
Criar memória não apenas para ser utilidade produtiva, mas sim um recurso que faz marca interna e nos põe perto de quem nutrimos laços de cuidado e carinho. A neurociência explica: Lembramos melhor de histórias. Nossa memória não evolui isoladamente, mas sim em contexto coletivo. Ou seja, você não lembra sozinho. Sua memória é moldada pela cultura, linguagem e grupo. E nesse aglomerado de experiências e afetos pode ser uma boa alternativa para enfrentar os períodos difíceis da vida. Lembrar que não se está só, que outros períodos complexos existiram e foram atravessados.
Que o mal-estar é inerente à vida, mas não é o único que marca presença já que a dimensão do amor é surpreendentemente potente. Lembrar. Lembrar coletivamente. E insistir que a evolução não se dá em isolamento,mas com o amparo de muitos.



